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MAKING OF
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O menino da Candelária - Preto velho - Doce olhar da graúna - Cortiço
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O menino da Candelária!
O cenário era a Avenida Presidente Vargas. À frente do que hoje funciona o Camelódromo da rua Uruguaiana. Lá encontrei um casal que usava o abrigo de um ponto de ônibus como morada. Um jovem, magro, estatura mediana, falante, assistia a “família” com o trabalho de guardador de carros exercido em Pilares, bairro do subúrbio carioca. Todo o final de tardes regressava com os trocados que conseguia juntar e comprava o alimento para sua mulher. Esta quase sempre estava deitada sobre um colchão, envolta com um cobertor de algodão vermelho, barato, que a protegia do frio das noites, e também a resguardava dos olhares curiosos das pessoas que passavam. A razão deste isolamento era a gestação de um filho, cujo crescimento se notava a olhos vistos com o volume de sua barriga que aumentava dia a dia.
Ficamos amigos e ela costumava alertar o companheiro quando me via:
“- Olha o fotógrafo chegando!”.
Este casal de moradores de rua fez parte do ensaio fotográfico realizado no início da década de 90.
O convívio com os “sem-teto” acontecia nos finais de semanas e feriados. Nestes dias, o contato com as pessoas era mais amigável. Nunca houve situação de constrangimento, porquanto havia um código de respeito mútuo. Eu respeitava a vontade do entrevistado: que se se negasse a ser abordado, não o importunava. Uma empatia surgia de ambas as partes.
Durante o corre-corre do dia a dia, um distanciamento parecia isolar as pessoas. Quantas vezes me esquivei de grupos de jovens, meninos ou meninas de rua, que de modos nada amistosos, fazia-me distanciar e evitar uma aproximação nada aconselhável. Era como acontece com a maioria das pessoas que cruza com outras num canto qualquer de uma rua movimentada, nas escadarias do Metrô, etc.
Normalmente estas pessoas são invisíveis aos olhares dos que passam. Incomodam quando estendem as mãos implorando uns “trocados”. São inoportunas, e logo se imagina: “- Por que não procura um emprego?”.
Certa ocasião passava em frente à Igreja da Candelária. Um grupo de garotos aprontava, numa euforia sem tamanho. À distância procurei fazer um flagrante fotográfico. Mas fui notado e tive que correr e proteger-me no interior do Centro Cultural Banco do Brasil. Ainda assim fiz uma foto.
Pouco tempo depois, num final de semana, procurei a direção da igreja e tive o consentimento para subir à cúpula e torres; e fazer uma série de fotos.
“-Não se esqueça do trocado do ajudante!”, sugeriu o senhor, referindo-se ao auxiliar que seria o meu cicerone.
A Igreja da Candelária volta-se para a Baía da Guanabara, e dá as costas para a Avenida Presidente Vargas. Alguém já chegou a sugerir inverter a posição da igreja, num miraculoso processo de engenharia; que, no entanto, foi descartado.
A Candelária é como uma mulata, uma mulata carioca: Não tem frente e nem verso. É harmonia, forma e beleza. E como a mulher, tem a brejeirice do olhar que contempla a baía, esparrama as vistas até a cidade de Niterói, cruza o Oceano Atlântico e banha-se com os raios solares de um astro que nasce no horizonte bem à frente da África... Da África negra!
Seus cabelos escorrem pelo teto de telhas vermelhas, torres; e projeta a sua sombra escultural sobre a Avenida Presidente Vargas. Sua voz é sonora e ecoa pela cidade marcando as horas cheias, o aviso do início da missa, o acontecimento importante da cidade; num bater repicante de um sino instalado numa torre, cujo acesso se faz subindo uns degraus de pisos malhados de fezes de pombos que procuram o local para abrigo.
E como mulher é também mãe. Mãe que assistia a presença de outra mulher: A artista plástica Yvonne Bezerra de Mello que costumava juntar-se ao grupo de meninos de rua da Candelária, para levar-lhes proteção, atenção e carinho. Roupas e alimentos!
“- O que tanto coças?”.
“- Nada Tia, são os bichinhos que estão se assanhando com o calor!”.
“- Vou te trazer um remédio para acabar com estes piolhos!”.
Uma noite os garotos dormiam tranqüilos sob as marquises dos prédios vizinhos, a escadaria da igreja, e sobre a cobertura de zinco de uma banca de jornal ao lado do Banco Safra, na Praça Pio X.
Carros aproximam-se. Silenciosos!
Armas afloram das vidraças das portas.
Uma língua de fogo, como partindo da boca de um dragão, salta de uma das armas. Não se ouve o primeiro estampido, senão quando o projétil rompe a pele do primeiro alvo. O garoto grita de dor e pavor. Outros estampidos se sucedem. O desespero se instala. Corpos são atingidos por balas de grosso calibre. Algumas crianças agonizam, outras correm desesperadas em todas as direções ou ficam imóveis sobre a cobertura da banca de jornal. Duas crianças cambaleiam mortalmente feridas, e procuram guarida na frente da igreja, seu último abrigo e leito de morte!
Oito crianças seriam brutalmente assassinadas nesta noite de 23 de julho de 1993.
A notícia varou a madrugada. Correu o Brasil e chegou como manchete nos jornais do exterior.
Na manhã do dia seguinte eu tomaria conhecimento da tragédia. Encontrava-me na região serrana de Visconde de Mauá, cidade de Resende.
No domingo compareceria à Igreja da Candelária. As marcas dos locais onde tombaram os meninos de rua ainda estavam frescas. Uma cruz de madeira encontrava-se fincada no jardim.
Neste dia conversei com um casal de jovens que jurava ser sobreviventes da Chacina da Candelária, como viria ser denominado o massacre dos meninos de rua no Centro do Rio de Janeiro. Uma senhora dizia-se representante de uma ONG e ouvia os depoimentos das pessoas. Um vulto, de aspecto suspeito, vagava sorrateiro pelas proximidades. Evitava se expor na frente das câmaras fotográficas. Imaginei comigo: “- O criminoso sempre volta ao local do crime!”.
Dias depois caminhava pela Avenida Presidente Vargas. Ao me aproximar do abrigo de ponto de ônibus de que me referi acima, fui surpreendido por um sorriso de uma madona. Não era enigmático. Transparecia pura felicidade. A criança em seu colo tinha 17 dias de vida.
Dei a volta por trás do sofá em que se sentava a senhora e fiz novas fotos. O pai da criança dormia estendido sobre o solo. Aos seus pés uma folha de jornal. Por ironia, estampado em letras de título de chamada, havia a inscrição: “O retrato do Brasil”.
Naquele dia eu testemunharia a presença de mais um “menino de rua”,... Nascido na rua!
José G. Pimentel
Rio de Janeiro, 23 de julho de 2003.
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Preto velho!
O coração amanheceu hoje preto e vermelho. Mas nada ligado ao “país de chuteiras”, como se diz no jargão do futebol. É que percebi correndo nas veias uma mistura de sangue com o caráter do “preto velho” descendente de escravos. E senti-me um negro com raízes africanas!
Fui buscar estas lembranças na Praça XV de Novembro, Centro, cidade do Rio de Janeiro.
Muitas vezes passei pelo local, e curiosamente olhava para aquele casarão de três andares, o Paço Imperial, fundado em 1743, tentando adivinhar em qual das janelas a princesa Isabel aparecera sorridente, atendendo ao clamor do povo que gritava lá fora, já sabendo que ela tinha sancionado a Lei Áurea, abolindo definitivamente a escravatura no Brasil.
O acontecimento ocorrera na tarde de 13 de maio de 1888. A princesa, a Redentora, tinha um nome grande, como a luz que a iluminava neste dia histórico: Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga.
O documento de número 3.353 era assim redigido:
“A Princesa Imperial Regente, em nome de Sua Majestade o Imperador, o senhor Dom Pedro II, faz saber a todos os súditos do Império que a Assembléia Geral decretou e Ela sancionou a Lei seguinte:
Art I - É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil.
Art II - Revogam-se as disposições em contrário.
Manda portanto a todas as autoridades, a quem o conhecimento e execução da referida Lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir e guardar tão inteiramente como nela se contém.
O Secretário de Estado dos Negócios da Arquitetura, Comércio e Obras Públicas e interino dos Negócios Estrangeiros, Bacharel Rodrigo Augusto da Silva, do Conselho de Sua Majestade o Imperador, a faça imprimir e correr.
Dada no palácio do Rio de Janeiro, em 13 de Maio de 1888, 67 da Independência e do Império. Princesa Regente Imperial - Rodrigo Augusto da Silva”.
Nesta praça de várias lembranças pude recordar uma noite fria, com uma chuva fina que caía atrapalhando a feira de artesanatos. O multicolorido das lâmpadas de descargas elétricas da iluminação pública e as incandescentes das barracas davam um tom colorido às fotos tiradas naquela noite, resultando numa mistura de verde e amarelo. Uma coincidência para aquele espaço cheio de histórias.
Noutra ocasião encontrei uma jovem senhora loira que desabafava a sua tristeza num copo de cerveja tomado sentada numa cadeira de ferro, dessas usadas em bares. Um negão forte, e apenas simpático, porém fotogênico como me afiançava, era o motivo dos seus olhos vermelhos, marejados de lágrimas. Ele atendia num bar de rua, instalado debaixo da passarela que levava até a Estação das Barcas.
Esta volta ao passado tinha a sua razão de ser. Hoje faz 115 anos da assinatura da Lei Áurea. E o negro era o foco de minhas lembranças.
Muitos amigos e conhecidos foram aflorando em minha memória.
Lembrei-me de um passeio pelo bairro de Santa Teresa. Ele tocava um violão sentado numa mureta de onde se podia ver ao longe o centro da cidade. Seus dedos dedilhavam uma melodia, cuja execução ficou registrada na lente de minha câmara fotográfica exposta em baixa velocidade. O pretinho, morador do bairro, era um exímio instrumentista.
Vaguei os pensamentos até a cidade de Paraty, local que freqüentei por dois longos anos, visitando periodicamente a comunidade remanescente de quilombo Campinho da Independência. O líder comunitário, Valentim Conceição, recebia-me cortesmente, embora se reservando o direito de não se deixar fotografar. Mas um dia tinha resolvido que o faria parte de meu ensaio fotográfico. E flagrei-o dentro de um cercado cuidando de uns pés de palmito.
Nesta comunidade fiz amizades com outras pessoas, como a Joana e a Benedita. Elas foram meus anjos protetores e deram-me as fotos mais expressivas.
Na entrega do título de propriedade de terra remanescente de quilombo, uma senhora se destacava por sua elegância. Ela despertava os olhares de muitos curiosos. Um se aproximou de mim e confessou: “- Mulher linda!” Eu concordei, enaltecendo a beleza da presidente da Fundação Cultural Palmares!
Na cidade de Paraty, numa passagem pela praia de Jabaquara, vi sentado numa cadeira, com um amplo chapéu de palha que filtrava o Sol do final de tarde, e notava-se ao longe um grupo de garotos praticando o seu futebol de várzea, levantando uma leve nuvem de poeira, um velho senhor, que refletia solitário, como a proferir uma prece. Era o “Tião Professor”, figura conhecida da comunidade.
Recordo-me de uma garotinha negra, recém nascida e encontrada enrolada com um pedaço de pano dentro de um cesto colocado à beira da estrada. Estava roxa de frio e fome. Uma auxiliar de loja de lembranças da Vila de Maringá, Resende, levou-a para casa e salvou-lhe a vida.
Numa festa de final de ano no Clube Caiçara, Lagoa, na cidade do Rio de Janeiro, uma senhora de olhos negros, brilhantes, sorriso largo, com tranças caindo sobre os ombros, sorriu para uma foto. Seu rosto negro de forte expressão fotográfica entrou para a minha coleção de retratos de mulheres.
Em recente viagem a Curitiba, no Memorial da Cidade, outro rosto de mulher negra seria alvo de minhas atenções. Mulher de seus 52 anos de idade, monitora do espaço cultural, bordava uma toalha de mesa para expor numa coletiva. Ela não era só fotogênica. Mexia com a minha libido. E quase infrigie um dos mandamentos da Lei de Deus!
E para finalizar este rol de pessoas que nalgum dia foram muito importantes para mim, não poderia deixar de citar uma personalidade que neste momento está revitalizando uma entidade voltada para a cultura negra: a Anna Davies; presidente da CAPA – Associação Casa do Artista Plástico Afro-Brasileiro. A CAPA acaba de ganhar novas instalações na rua Joaquim Silva, 11, sala 804, bairro da Lapa.
O 13 de maio é uma data que não poderia ser esquecida, pois coroa toda uma trajetória de lutas vividas por grandes vultos da história abolicionista. Uma plêiade de homens e mulheres que deram o melhor de suas vidas para livrar o país da vergonha de continuar escravizando o próprio homem.
José G. Pimentel
Rio de Janeiro, 13 de maio de 2003.
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Doce olhar da graúna!
O ensaio fotográfico realizado na comunidade rural Campinho da Independência me renderia, além de belas fotos, a amizade de muitas pessoas; gente simples, orgulhosa de sua condição de descendente de escravos.
Dentre estas pessoas, quero falar de uma em especial: a Benedita Santos da Hora.
O primeiro contacto que tivemos ocorreu em 29 de dezembro de 1996. Recebeu-me na varanda, com o direito ao convite para tomar uma xícara de café.
Registrei o seu depoimento. Era casada e se aposentara como enfermeira, tendo trabalhado num hospital especializado em oncologia. Com o seu jeito atencioso, sua fala macia, dizia as palavras como se estivesse pregando ensinamentos. E era ouvida com o respeito que a altura de seus 81 anos de idade conferia.
Voltei a vê-la outras vezes. Na última fui encontrá-la na porta da cozinha, ao lado da casa. Acabara de acordar. Seus olhos brilhavam como os olhos negros da graúna. Os cabelos esvoaçados, apontados para o alto, num belo buquê de pétalas negras e frisos brancos.
A esta altura já estava viúva.
Trocamos algumas palavras, enquanto registrava este último momento com a máquina fotográfica.
Esta foto estaria na abertura de todas as exposições que realizei sobre o quilombo de Campinho da Independência.
Passaram-se os anos. Hoje, 26 de agosto, no Pavilhão Preto do Museu da Cidade de Lisboa, Portugal, a exposição fotográfica “Rostos de Mulher”, se encerra depois de um mês aberta à visitação pública. Trinta e um fotógrafos, dentre eles um brasileiro, se fizeram representar com oitenta e uma fotos.
A exposição foi organizada pela revista CAIS e o portal de fotografia foto@pt. A revista CAIS (Círculo de Apoio à Integração dos Sem-abrigo) se destina a angariar fundos através da venda de seus exemplares ao preço de 2 Euros, e ajudar homens e mulheres assistidos por diversas instituições que procuram reintegrá-los à sociedade por meio do trabalho. Estes sem abrigo são os “vendedores da CAIS”, facilmente encontrados nas ruas com os seus jalecos vermelhos.
Recebi um exemplar da revista CAIS e um CD-ROM com todas as fotos que participaram do concurso. Numa carta o seu representante, Sr. João da Silva Gomes Mota, diz:
"- Agora tenho a alegria de passear na cidade e ver os vendedores da CAIS com
as fotos da "nossa" exposição e saber que este é o seu ganha-pão durante dois meses".
Estas palavras me fazem ver que a Benedita não apenas ajudou a salvar vidas em sua profissão de enfermeira, ela continua, com o seu doce olhar da graúna estampado naquela foto, a dar esperanças e cidadania, a muitas pessoas que nalgum momento haviam perdido o sentido de suas existências.
A mim, na impossibilidade de mais uma vez olhar diretamente nos olhos da Benedita, resta dizer que sou grato por um dia ter conhecido esta mulher tão especial.
José G. Pimentel
Rio de Janeiro, 26 de agosto de 2002.
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Cortiço!
Em setembro de 1994, fotografando comunidades de ruas, no bairro do Catete, centro do Rio de Janeiro, entrei num terreno baldio que era ocupado por algumas famílias morando em barracos construídos de madeira e cobertos de lonas e plásticos. O ambiente era de extrema pobreza; com lixo e valas negras ocupando cada canto do terreno.
Uma garotinha, que viria saber chamar-se Ana Paula, de 1 ano e 11 meses de idade, brincava no lixo e ameaçou chorar com a minha presença. Outras crianças, de sua idade e um pouco mais velhas, dividiam o mesmo espaço. Os pais eram catadores de papel.
Conversei com as pessoas e tirei fotos das crianças.
Outras vezes eu voltaria ao local, inclusive no Natal daquele ano.
Esta história não se encerraria aí.
Em Acari, subúrbio, há uma biblioteca pública agregada a um colégio estadual. Biblioteca Mário de Andrade.
Certa ocasião tive a atenção voltada para um anúncio sobre um concurso de fotografias aberto ao público em geral. Inscrevi-me e passei a conhecer a organizadora do evento: professora Maria Lumb, também encarregada da Biblioteca Mário de Andrade.
Neste colégio todos os anos realizam-se eventos culturais ligados às artes cênicas e visuais.
No hall de entrada o quadro de avisos fazia a vez de mural para a mostra de fotografias. Ali se cortava a fita simbólica e entregavam-se os prêmios.
A professora Maria Lumb era a responsável pela mostra de fotografias, correndo atrás de apoios, brindes para as premiações, etc.. Trabalho hercúleo para os seus mais de sessenta anos de idade.
A garotada do colégio, apesar de instigadas, não participava da mostra de fotografias devido ao custo do material. Eu cheguei a ministrar uma palestra em sala de aula, mas a motivação não superou a carência financeira dos alunos.
Num dos concursos de fotografia, o de número quatro, compareci ao evento e fiquei aguardando o momento da premiação assistindo as declamações de poesias e as representações teatrais no auditório.
Passadas algumas horas aparece a professora Lumb, com sua calma habitual, sua fala mansa, caminhando em minha direção.
- Você não foi receber o prêmio?
- Que prêmio?, indaguei.
- O primeiro lugar!
A foto premiada fora uma das tiradas no cortiço do bairro do Catete. A Ana Paula me dera o primeiro prêmio!
Em conseqüência desta distração, fui o único a receber a premiação no auditório!
A professora Maria Lumb se aposentou, mas continua agitando os eventos do colégio. Volta e meia me liga informando sobre a realização de um ou outro concurso. Semana passada me falou de uma foto que lhe mandara no final de ano: fotografia do farol de Santa Marta, tirada na Vila de Cascais, em Lisboa, Portugal. Tinha mostrado num laboratório fotográfico e que iria colocar numa moldura e levar para a sua casa de praia. Eu lhe propus enviar uma cópia maior, mas ela se negou receber. Aquela foto 10x15 é que lhe faria companhia nas horas de descanso!
O concurso de fotografia da biblioteca se encerrou por falta de participação dos alunos.
Dele restou a minha premiação do 4º Concurso de Fotografia: uma máquina fotográfica LUMO, modelo LC-A, 1:2.8, 32mm, que guardo em sua caixa de plástico, ainda com o doce perfume das mãos da professora Maria Lumb!
José Geraldo Pimentel
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Parte II
Arraial d’Ajuda/Campinho da Independência/Dia dos Pretos Velhos.
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Arraial d’Ajuda!
Arraial d’Ajuda é um distrito do município de Porto Seguro, Estado da Bahia. Está localizado à margem direita do rio Buranhém. A comunicação entre cidade e distrito é feita através de uma travessia de barco ou de “ferry-boat”, com duração de cerca de 5 minutos.
Esta semana os meus pensamentos se voltaram para o lugarejo, levado por um estranho episódio ocorrido em meu local de trabalho. Explico: ao ligar o computador, notei que um ícone alertava para uma matéria pendente na impressora. Horas antes eu havia imprimido três páginas de textos. E nada ficara pendente. Por curiosidade acionei a impressora e, como resposta, foi impressa uma foto de arquivo com o Santuário de Nossa Senhora d’Ajuda!
Considerei o fato como uma falha da impressora ou desatenção de minha parte!
O distrito do Arraial d’Ajuda entrou em minha vida com as comemorações dos quinhentos anos do descobrimento do Brasil. Usei o lugar como ponto de apoio durante o desenvolvimento de meu projeto fotográfico “Semana de Vera Cruz – O caminho do descobrimento do Brasil”. Foram 12 meses de andanças pelo Sul da Bahia. Registros de sítios históricos que assinalam a passagem da esquadra comandada pelo navegador português Pedro Álvares Cabral em sua ida para as índias, nos idos de 1500; e que resultou na descoberta da “Ilha de Vera Cruz”. Fotografias dos municípios de Prado, Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália. E documentário das aldeias indígenas Pataxó. Trabalho realizado antes e depois das obras de revitalização da região.
Alguns fatos me ligaram emocionalmente a este distrito.
O Santuário de Nossa Senhora d’Ajuda é ponto de atração turística e procura de fieis e romeiros devotos da Virgem Maria. A imagem de Nossa Senhora d’Ajuda foi trazida para o Brasil pela frota comandada por Tomé de Souza em 1549. No Natal do ano seguinte, ainda como uma ermida coberta de palha, o Pe. Nóbrega celebrou a primeira Missa do Galo oficiada no Brasil. Esta imagem tem cerca de 31 cm de altura e é “representada de pé, com o Menino Jesus sentado em seu braço esquerdo”. Esta imagem eu a tive nas mãos e a fotografei.
Conta uma lenda que durante uma missa, surgiu no terreno uma fonte de água, crescendo a fé pela santa e aumentando a romaria para a capela. Séculos depois, em 1929, um banheiro foi construído ao pé do platô onde é erguido o Santuário, servindo para banho de romeiros e de fonte de água benta.
Atrás do Santuário, na rua Bela Vista, existe a Pousada Restaurante Tubarão, administrada, à época de meu trabalho, pelo sergipano Severino Ferreira Pereira. Ele vivia com a mineira Eloísa, mulher bonita e extremamente carinhosa. Eu os admirava e sentia-me em casa naquela pousada. Toda a noite, ao regressar, lá encontrava o amigo Severino com o seu jeito atencioso e o inseparável copo de aguardente com mel de abelha. Eu não resistia ao brinde e o complementava com algum tipo de prato especial, como a carne de sol frita na brasa! O Severino me acompanhava nestas horas. Ele era um profundo conhecedor do distrito e de sua gente, gravando um depoimento que seria incorporado ao meu projeto. O que me prendia também à pousada era a feijoada dos domingos, especialmente preparada pelo anfitrião. Cheguei a tomar por hábito, sempre que viajava para Porto Seguro, ter o cuidado de não perder o domingo da feijoada!
No desenvolvimento do projeto ia “cavando” espaços para a futura apresentação de minha exposição fotográfica, que planejava expô-la na “semana de Vera Cruz”, período de 10 dias compreendido entre 22 de abril e 1 de maio, tempo de permanência da esquadra portuguesa no Brasil. Diversos espaços iam sendo cogitados, como o “Espaço Erva Doce”, no distrito do Arraial d’Ajuda, que seria descartado em cima dos festejos do descobrimento, por simples obra de vir a ser alugado pela proprietária, que esquecera de seu compromisso para comigo; a Casa Cabral de Belmonte, museu construído em Coroa Vermelha, município de Santa Cruz Cabrália, que não chegaria a ser inaugurado a tempo; e o Centro de Cultura João Ubaldo Ribeiro, localizado na Passarela do Álcool, Centro de Porto Seguro, inviabilizado em virtude do bloqueio da rua pela construção de uma enorme arquibancada de madeira que serviria à assistência para uma encenação da chegada dos portugueses ao Brasil. Restaram-me, no final, o salão de convenções do Baía Cabrália Hotel, em Santa Cruz Cabrália, e a casa paroquial do Santuário de Nossa Senhora d’Ajuda. O Assessor Executivo 500 Anos, Josemar Marinho Siquara, foi o responsável pela cessão do espaço em Santa Cruz Cabrália; e o Missionário Redentorista padre José Grzywacz, cedeu-me o salão no Arraial d’Ajuda.
Outra lembrança que me remonta ao distrito do Arraial d’Ajuda é a causa desta matéria. A foto tirada da fachada do Santuário de Nossa Senhora d’Ajuda.
Um belo dia acordei disposto a fotografar o nascer do Sol. Era o dia 21 de abril de 1999. Seria a primeira vez que fazia este tipo de foto. Eu, realmente, só vira o Sol surgindo por trás de morros, nunca diretamente na linha do horizonte entre o mar e o céu. Neste dia me direcionei para o terraço localizado aos fundos do Santuário. Uma visão deslumbrante. Do alto do platô, o mar aparecia à cerca de mil metros, com uma coloração magenta que ia se delineando num ponto bem a minha frente. Pela minha previsão, o Sol nasceria precisamente às 05:50 horas. Como ainda faltavam alguns minutos, caminhei até a frente do Santuário. Uma descrição técnica explica : “corpo principal da fachada é coroado por frontão barroco em volutas, e torre sineira, do lado direito, com terminação piramidal”. Um calçadão de pedras e um cristo numa extremidade. Um jogo de luzes estaria reservado à foto que seria tirada da igreja. O amarelo da fachada, reproduzindo o efeito da luz de tungstênio do poste plantado a sua frente; o verde da luz de descarga do letreiro de uma das lojas laterais; e o vermelho da linha do horizonte. Moldurado pelo negro da noite!
Feita a foto da frente da igreja, reassumi o meu posto, pronto para o clic do nascer do Sol. Exatos as 05:50 horas, como o previsto, aponta um semicírculo amarelo. Rápido, uma enorme bola de fogo emerge das águas e se revela por inteira, majestosa e assustadora. Uma forte emoção me toma conta. Um espetáculo deslumbrante! A imagem mais bela que presenciara!
A foto da fachada da igreja também não me decepcionaria. Viria a ser uma das que mais me agradaria. E eu cederia uma cópia para o pároco do Santuário de Nossa Senhora d’Ajuda.
Esta foto seria reproduzida na impressora, anos depois, de maneira inesperada!
José G. Pimentel
Rio de Janeiro, 19 de julho de 2002.
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Campinho da Independência!
Revendo uma gravação feita na comunidade rural remanescente de quilombo Campinho da Independência, encontrei uma citação que dá nome ao blog “Pequenas Estórias”. Na entrevista com o líder comunitário e agente pastoral Valentim Conceição, 72 anos, bisneto dos escravos Rodrigo e Luiza; num dado momento, justificando a minha presença no local, dizia que era minha proposta realizar “pequenas estórias” sobre populações como a do Campinho da Independência.
Eu me aproximara da comunidade motivado pelo desafio de superar o fracasso que fora a presença de uma amiga no local, quando pretendera fazer um senso demográfico. Eu me dirigi à comunidade disposto a conquistar a simpatia das pessoas e não sair de lá sem deixar de realizar um ensaio fotográfico. Sabia que era questão de passar confiança!
Várias visitas se sucederam no período de dois anos.
Neste trabalho uma pessoa me cativou. Joana, Maria Joana do Nascimento, 76 anos, bisneta do escravo Amâncio. Abordei-a pela primeira vez em sua casa, na sala de visitas. Ela sentada num sofá fazendo um tapete com retalhos de sobras de tecidos. Eu a sua frente, fitando-a nos olhos, com a máquina fotográfica engatilha na mão e um gravador colocado sobre uma mesinha de centro.
Seguiu-se uma cena hilariante. Enquanto ela se negava a ser fotografada: “- Não fotografa, não!”; eu procurava distraí-la, puxando estórias, e fazendo o registro fotográfico.
A minha diretriz no projeto era me ater às falas das pessoas, obtendo um registro oral da comunidade, de modo a recriar no cotidiano, os fatos ali narrados. Tivera conhecimento de um trabalho realizado com o patrocínio da Fundação Cultural Palmares, mas evitei ler o livro, para me manter fiel a minha proposta da descoberta com as pessoas.
Passados dois meses, voltando à comunidade, presenteei a Joana com uma foto. Ela ficou radiante, e logo chamava o filho, nora e netos para uma sessão de fotos. Fotografei-os sentados num banco ao lado da casa. Noutra ocasião, procurei a minha amiga. Ela estava na roça, informaram-me. E, realmente, de longe a avistei no morro, do outro lado da pista da BR-101, rodovia que corta a comunidade, com uma enxada nas mãos remexendo a terra. Mas que depressa, dirigi-me ao local. Rastejei morro acima, sorrateiramente, surpreendendo-a com alguns flagrantes. Ela, como sempre, protestou.
Foram fotos de uma senhora bem disposta, firme no trabalho, transpirando por todo o corpo. Retirava do solo raízes de mandioca, que eram juntadas num canto!
O dia 21 de março de 1999 chegou. Uma festa celebraria a entrega do título de posse da terra, reconhecida como remanescente de quilombo. Presenças ilustres compareceram na comunidade. A vice-governadora do Estado do Rio de Janeiro, Benedita da Silva, senador Abdias do Nascimento, representantes de embaixada e secretários estaduais, prefeito de Paraty, Presidente da Fundação Cultural Palmares, Dra. Maria Dulce Pereira, e grande número de entidades representativas do negro. Discurso em palanque, plantio simbólico de árvore e visita as dependências da comunidade.
Eu estava com uma exposição das fotos tiradas na comunidade.
No meio dos discursos, uma professora com um grupo de crianças, retirada uma das fotos da exposição, levantou um cartaz onde prendia a foto, e solenemente mostrou para o palanque. Segui-se um momento de silêncio. Meu coração bateu forte. Segurei as lágrimas. Aquela foto 30x40 cm, em preto e branco, de uma mulher negra, com uma gota de suor descendo pela face, eu a havia tirado.
Murmurei baixinho para o jornalista ao lado: “- Aquela é a Joana!”.
Joana havia falecido em setembro do ano anterior.
José G. Pimentel
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Dia dos Pretos Velhos
No dia 13 de maio de 1888, Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga, a Redentora, princesa imperial e regente do Brasil, assinou a Lei Áurea, abolindo a escravatura no país.
Reportando-me a esta data, estive a semana passada em Parati, município localizado ao Sul do Estado do Rio de Janeiro. Parati está ligada ao período da escravatura.
Cidade histórica fundada no fim do século XVI, teve seu apogeu como entreposto comercial durante os ciclos do ouro e da cana-de-açúcar. Guarda deste período vestígios do “caminho do ouro” e alguns de seus engenhos. Preserva “um dos mais harmoniosos conjuntos arquitetônicos do país, tombado pelo Patrimônio Histórico”. O centro histórico é proibido ao trânsito de veículos, cercado por pesadas correntes de ferro. Em época de lua cheia, com a maré-alta, as águas do mar tomam as ruas, criando um cenário de rara beleza. Motivo para manifestações artísticas de pintores e fotógrafos.
De Parati sai numa excursão a bordo da escuna “Soberano da Costa”. O destino: enseada de Parati-Mirim.
Este recanto aplausível do litoral fluminense é uma extensão de Parati. Muitos navios negreiros aportaram nas águas tranqüilas da baía de Parati-Mirim, desembarcando os negros aprisionados e trazidos da África. Esses sobreviventes da travessia do Atlântico eram confinados numa “Casa de Recuperação”, construída à beira da praia. Lá recebiam cuidados para se curarem das enfermidades e feridas, resultantes dos maus tratos a que eram submetidos durante a longa viagem. A “Casa de Recuperação”, um grande casarão de pedra e alvenaria, coberto de telhas, permanece no local. Ao seu lado existe uma pequena igreja dedicada a Nossa Senhora da Conceição, edificada por volta de 1686. Nela os negros eram batizados, convertendo-se ao catolicismo. E por alguma razão, décadas seguidas, o antro da igreja era invadido pelas águas do mar. O fenômeno só foi amenizado com uma contenção de pedra construída à frente da igreja.
Os negros, depois de submetidos ao sacramento do batismo, eram vendidos como escravos aos senhores donos dos engenhos das vilas próximas de São Paulo e Minas Gerais. A então Vila de Parati também se beneficiava desses escravos em suas inúmeras fazendas. Uma delas, com a abolição da escravatura, foi doada por sua proprietária, dona Francisca, à escrava Benedita Angélica, dando origem à atual vila de Cabral. Nas proximidades existe uma comunidade rural remanescente de quilombo, Campinho da Independência.
Outro vestígio da escravatura está na ilha da Cotia, na baía de Parati-Mirim, onde os escravos punidos eram acorrentados numa caverna e morriam afogados com a subida da maré.
A escuna “Soberano da Costa”, o nosso navio de excursão, não pertenceu ao período da escravatura, mas tem quase cem anos de existência e muita tradição.
Construído em Buriti, Maranhão, foi lançado ao mar em 1904. Todo de madeira “com dois mastros inclinados com a carangueja repicada, velas latinas quadrangulares e gurupés com a respectiva vela de estai (brijanona). Esta armação de origem holandesa oferecia grande área vélica, de fácil manejo”.
Essas velas foram aposentadas. Hoje navega movido a motor diesel, um Scaner de 6 cilindros, 307 HP, com velocidade de 8 nós e autonomia de 60 horas.
O navio foi empregado inicialmente no transporte de sal e em charcos da região. Nos anos 40/50, usaram-no nas buscas de contrabandos nas Guianas. Sofreu sua primeira reforma nos anos 70 quando se deslocou até Nova Viçosa, na Bahia, para ser restaurado pelo mestre carpinteiro Alberto Cordeiro, o “Meu Tio”. Na década de 80 navegou para o Sul. A viagem demorou cerca de seis meses do Maranhão a Itucuruçá, distrito de Mangaratiba, a 152 km de Parati. Comprado pelo cineasta Adoino Colassanti e a atriz Sônia Braga, sua namorada na época. Nessa viagem Jedydya Worcman associou-se ao empreendimento, comprando-o posteriormente. Em seu novo porto foi empregado em filmagens de TV: o seriado Sítio do Pica-Pau Amarelo e a novela Gabriela Cravo e Canela. Atualmente é utilizado exclusivamente em passeios pela baía de Parati.
Depois deste histórico, quero falar da minha excursão propriamente dita.
A viagem no “Soberano da Costa” teve os seus momentos inesquecíveis.
Aproveitei a ida para ouvir as histórias contadas pelo mestre Walter de Lima, 40 anos, há 15 trabalhando nesta escuna, seu marinheiro Érico e a cozinheira Glória.
Aproximando da enseada de Parati-Mirim, fiz alguns registros fotográficos, tendo como planos de foco a proa do navio e a praia, onde se destacavam a “Casa de Recuperação” e a igreja de Nossa Senhora da Conceição.
Alguns personagens foram motivos de minhas observações. Uma senhora de certa idade, demonstrando muito medo, fez questão de se resguardar, vestindo o seu colete salva-vidas. Manteve-se todo o tempo colada num canto, bastante apreensiva. Um casal: ele italiano e ela brasileira, permaneciam na proa do navio, ora de pé, ora deitados num costado de rede, quase me tomando o ângulo de visão para as minhas fotos.
O navio atracou à direita daqueles sítios históricos. Uma pausa para mergulho e lanche nas barracas instaladas na praia.
Tentei chegar até a igreja de Nossa Senhora da Conceição, mas o acesso e o tempo não o permitiram.
Outra senhora, apaixonada por bijuterias e plantas exóticas, tratou de juntar suas lembranças do mar, brotos de plantas e um saco que achou cheio de conchas de moluscos. Uma atitude nada correta para a sua filha Izabel, ecologista e navegadora de caiaque, com longa história de percursos pela costa brasileira e mares do litoral Europeu. A sra. Zeti, nome da “colecionadora”, driblou a filha e voltou a bordo realizada com os seus preciosos achados!
Quando todos já haviam regressado ao navio, deram por falta de um casal. Ele surgiria depois, andando calmamente a beira da praia, vindo da direção da igreja. Igreja que eu não conseguira alcançar. O escaler usado para o transporte do pessoal teve de retornar à praia para apanhar os jovens retardatários. Eram os já citados: o italiano e a brasileira.
Uma segunda parada, para o almoço, foi realizada à frente da praia do “Saco da Velha”. Nome tirado da lenda que fala de uma velha que andava pelas praias da região recolhendo lixo em um saco.
O casal mais uma vez entrou no foco de minha atenção. Descontraídos e românticos, os jovens trocavam um ardente beijo. Exibiam-se num ponto mais alto da popa do navio, tendo como fundo a nossa encantadora praia. O registro fotográfico aconteceu inevitavelmente!
O tempo começou a fechar com a ameaça de uma aproximação de temporal.
Após o consenso dos passageiros, decidiu-se que a próxima parada seria breve, sem direito a desembarque e banho de mar.
A chuva foi se chegando, assustando os passageiros, obrigando-os a procurar abrigo nos apartamentos internos do navio. Eu, no início, enquanto o vento permitiu, fui ficando deitado, embaixo de um barco salva-vidas amarrado à popa. A minha frente o mestre segurava o rumo do navio, firme no comando do timão. O italiano não parava de dar o seu showzinho. Discutia sobre o verdadeiro material de que seria feito o instrumento de bordo fixado à frente do timão. Dei o palpite de que era bronze. O marinheiro corroborou. Mas o amigo italiano, numa mistura de inglês e português, com a sua língua natal, teimava em acreditar ser de uma outra liga metálica.
A chuva engrossou e a discussão foi interrompida.
Tratei de procurar abrigo junto aos outros passageiros.
No compartimento interno as pessoas tremiam e se acomodavam como podiam. Aproveitei para trocar o filme que chegara ao fim. Novas fotos e... mais um registro de nosso casalzinho se beijando. Agora numa cena provocativa, especialmente encenada para mim!
O passeio encerrou-se depois de cinco horas de viagem, debaixo de um forte temporal.
O balanço para mim não foi totalmente dos piores. Tirando a inutilização do relógio de pulso pelas águas, e o corpo completamente encharcado, valeu o passeio pela visão de lindas ilhas e praias. E o mergulho numa parte de nossa História!
Em casa, refletindo sobre o susto que passei com o temporal, navegando em um mar agitado, imaginei a sensação de pânico a que eram submetidos os prisioneiros trazidos da África. Acorrentados, sem chance de defesa, confinados no fundo de um porão de navio!
Aos “pretos velhos”, os sobreviventes, os que não deixaram que a História os esquecessem, fica a minha eterna admiração!
José G. Pimentel
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